Seja sincero: quantas vezes você já se olhou no espelho, percebeu que a barriga estava atrapalhando para amarrar o sapato e decidiu que na segunda-feira tudo mudaria? Você marca a consulta, sai de lá com um papel cheio de restrições, compra alface, frango e passa a viver à base de água. Na primeira semana, você é um guerreiro. Na segunda, o estresse do trabalho bate. Na terceira, os amigos chamam para o futebol seguido de churrasco e cerveja. Resultado? Você chuta o balde, abandona o tratamento e volta à estaca zero.
Se essa história soa familiar, saiba que você não está sozinho e, mais importante, a culpa não é da sua “falta de vergonha na cara”!
Índice
Dieta restrita vs. Tratamento para perda de peso
Um estudo recente conduzido por pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) investigou exatamente isso: por que as pessoas abandonam os tratamentos nutricionais para perda de peso?
A resposta que a ciência encontrou é direta e reta: a dieta restrita é o principal fator de sabotagem. Vamos destrinchar esse estudo e entender como você pode “hackear” esse sistema para emagrecer sem enlouquecer.
O cenário
Primeiro, vamos encarar os fatos. O excesso de peso não é só uma questão de não caber na calça jeans; é um problema crônico que está atacando muitos homens por aí.
Dados do Ministério da Saúde mostram que o excesso de peso no Brasil saltou de 42,6% em 2006 para absurdos 57,5% em 2020. Isso significa que mais da metade dos brasileiros está carregando um peso extra que sobrecarrega as articulações e aumenta o risco de infartos, diabetes e pressão alta.
O problema é que, ao tentar consertar isso, a maioria cai na armadilha do radicalismo. O estudo da USP foi atrás de adultos que simplesmente abandonaram a nutricionista no meio do caminho. Ao analisar as entrevistas, as pesquisadoras descobriram que a vilã não era a falta de vontade, mas sim a Dieta Restrita.


Comendo igual um passarinho: fome e vazio emocional
Sabe aquela dieta que manda você comer três bolachinhas de água e sal no café da manhã e uma castanha de tarde? Para o homem que está acostumado a comer um prato de “peão” no almoço para aguentar o tranco do dia a dia, isso é uma tortura.
Os participantes da pesquisa relataram que as dietas com quantidades muito pequenas de comida geram irritação extrema e mau humor. Mais do que isso, a restrição cria uma sensação de “vazio”. A ciência mostra que a comida, muitas vezes, não é apenas combustível para o corpo; ela tem um aspecto hedônico, ou seja, de prazer. Comer é uma válvula de escape para o estresse. Quando a dieta tira sua comida preferida sem nenhuma negociação, ela tira também a sua principal ferramenta de bem-estar emocional, tornando o tratamento insustentável.
A prisão social: não posso beber, não posso sair?
Aqui está o ponto onde a maioria dos caras desiste. No estudo, ficou claro que a dieta restritiva afeta diretamente a vida social. Imagine a cena: você trabalha a semana inteira, resolve os problemas de todo mundo e, na sexta-feira, só quer tomar uma com os amigos. Mas a dieta diz que refrigerante nem pensar, bebida alcoólica e cerveja também não.
Essa proibição faz com que você se sinta preso. Uma das pessoas entrevistadas no estudo resumiu bem:
“a dieta rigorosa limita você a ponto de tirar a vontade de sair para se divertir”
Você acaba se isolando para não cair em tentação. E vamos falar a verdade: ninguém aguenta viver isolado por muito tempo. O tratamento se torna um fardo e o abandono vira a única saída para recuperar a sua liberdade.
A culpa
Outra descoberta interessante do estudo é o peso psicológico da palavra “dieta”. Quando o profissional de saúde passa um plano alimentar cheio de restrições e dá a entender que você terá que comer apenas legumes, vegetais e proteínas para o resto da vida (o famoso “ad aeternum”), o cérebro entra em colapso. A ideia de nunca mais poder comer um hambúrguer ou tomar um chopp é tão desestimulante que a pessoa simplesmente joga a toalha.
Além disso, quando você inevitavelmente comete um deslize (porque você é humano), o modelo de dieta restrita gera um sentimento de fracasso gigantesco. O estudo documentou relatos de frustração, depressão e muita culpa. É como se o profissional de saúde te desse uma missão impossível e, ao falhar, você se sentisse condenado. Sem conseguir lidar com essa culpa, o paciente foge do tratamento.
Perder peso custa menos do que você imagina!
A solução: emagrecendo sem sofrimento
Se a dieta radical não funciona, como perder peso? O estudo aponta o caminho, e ele passa longe da fome.
- Comida de verdade: Esqueça as dietas que excluem completamente os carboidratos e te deixam com azia de tanta água. A estratégia validada pela ciência e pelo Guia Alimentar para a População Brasileira é focar em alimentos in natura (arroz, feijão, carnes, legumes) e reduzir os ultraprocessados, sem a necessidade de passar fome.
- O profissional certo: Procure um nutricionista ou endocrinologista que atue como seu treinador, não como um ditador. O profissional moderno entende que a alimentação envolve o corpo, a mente e a sua vida social. Sabemos que as decisões sobre o que comer não podem ser enfiadas goela abaixo; elas precisam ser negociadas com você, respeitando sua rotina, seus gostos e até a cerveja do fim de semana, desde que com moderação.
- Mudança gradual: Mudar hábitos leva tempo. O emagrecimento real não acontece em uma semana; é um projeto a longo prazo. Em vez de cortar tudo 100% de um dia para o outro, faça reduções graduais. É a flexibilidade que vai te manter no jogo.


Conclusão
Para resumir: o fracasso na perda de peso não acontece porque você é fraco, mas porque a estratégia das dietas restritivas é fundamentalmente falha para a psicologia humana. Tratar a obesidade exige que você assuma o controle como protagonista, mas sem se aprisionar.
Da próxima vez que decidir perder barriga, não procure atalhos punitivos. Ajuste seu “combustível” de forma inteligente, coma bem, treine e mantenha sua mente sã. Afinal, a melhor dieta não é aquela que te faz perder mais peso em uma semana, mas sim aquela que você consegue manter para o resto da vida sem deixar de viver.

