Canetas emagrecedoras: um guia completo sobre os avanços na ciência e segurança

médicos em laboratório analisando os medicamentos glp-1
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Caio Vega

Última atualização

9 de janeiro de 2026

A busca por soluções eficazes contra o excesso de peso transformou o cenário da medicina moderna, trazendo à tona as famosas “canetas emagrecedoras”. Mas o que a ciência realmente diz sobre elas? Um estudo recente de revisão analisou os avanços e as evidências clínicas dos agonistas do receptor de GLP-1, revelando um panorama detalhado sobre eficácia, riscos e o futuro desses tratamentos no Brasil:

A obesidade como um desafio global


A obesidade não é apenas uma questão estética, mas uma condição crônica e multifatorial que se tornou um dos maiores desafios de saúde pública do mundo. Ela está diretamente ligada ao aumento do risco de doenças graves, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças do coração e até alguns tipos de câncer.

No Brasil, os dados são preocupantes: a prevalência da obesidade em adultos saltou de 15,1% em 2010 para 24,5% em 2023. As projeções indicam que, até 2044, cerca de 75% dos adultos brasileiros poderão estar acima do peso ideal. Atualmente, mais de 60% da população adulta no país já apresenta excesso de peso, o que reforça a urgência de estratégias que vão além das dietas convencionais.

Como funcionam os Agonistas de GLP-1?


O segredo desses medicamentos está na mimetização do GLP-1, um hormônio natural que nosso corpo libera após as refeições. Esses fármacos atuam em três frentes principais:

  1. No cérebro: ativam receptores no hipotálamo que aumentam a sensação de saciedade e reduzem a fome, levando a uma menor ingestão de calorias.
  2. No estômago: retardam o esvaziamento gástrico, fazendo com que a comida permaneça mais tempo no estômago e a pessoa se sinta “cheia” por mais tempo.
  3. No metabolismo: estimulam a secreção de insulina e inibem o glucagon, o que ajuda no controle do açúcar no sangue (glicemia).

Os protagonistas: Liraglutida, Semaglutida e Tirzepatida

A pesquisa que analisamos destaca três moléculas principais que lideram o mercado, cada uma com características específicas de aplicação e potência:

  • Liraglutida (ex: Saxenda, Olire): de aplicação diária por via subcutânea, promove uma redução média de 5% a 8% do peso corporal em cerca de um ano. Recentemente, o Brasil lançou a Olire, uma versão nacional com custo significativamente inferior às opções importadas, ampliando o acesso ao tratamento.
  • Semaglutida (ex: Ozempic, Wegovy): aplicada uma vez por semana, demonstrou eficácia superior à liraglutida, com perdas de peso que variam entre 10% e 15% (podendo chegar a 14,9% em estudos específicos).
  • Tirzepatida (ex: Mounjaro): é a mais potente da atualidade por ter uma ação dupla (atua nos receptores GLP-1 e GIP). Estudos clínicos mostram reduções impressionantes de 15% a 22,9% do peso corporal, além de uma redução de 94% no risco de desenvolver diabetes tipo 2 em pacientes predispostos.

Nem tudo são flores: os efeitos adversos


Apesar da alta eficácia, o uso desses medicamentos exige cautela e acompanhamento médico rigoroso. Os efeitos colaterais mais comuns são de natureza gastrointestinal, ocorrendo em uma variação de 47% a 84% dos pacientes, especialmente no início do tratamento.

  • Sintomas frequentes: náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal. Geralmente são leves e diminuem com o ajuste da dose ao longo do tempo.
  • Riscos raros e graves: há registros de pancreatite aguda, problemas na vesícula biliar (colelitíase) e gastroparesia (paralisia gástrica).
  • Saúde mental: Agências de saúde alertam para a necessidade de vigilância psiquiátrica, pois alguns pacientes podem apresentar alterações emocionais como ansiedade, depressão e ideação suicida.
  • Riscos cirúrgicos: devido ao retardo no esvaziamento do estômago, pacientes que passarão por cirurgias precisam suspender o remédio temporariamente para evitar o risco de aspiração durante a anestesia.

A questão do preço no Brasil


O acesso a essas terapias ainda é um desafio financeiro. Em 2025, uma comparação de custos mostrou que o Mounjaro é a opção mais cara do mercado brasileiro, seguido pelo Wegovy e Ozempic. A chegada da Olire (nacional) representa uma alternativa com valor substancialmente mais baixo, o que pode democratizar o tratamento para uma parcela maior da população. No Brasil, a venda desses medicamentos exige obrigatoriamente prescrição médica, com retenção da receita na farmácia.

Uso consciente vs. Uso indiscriminado


Um ponto crucial destacado pela ciência é o perigo da banalização. O uso dessas “canetas” como solução rápida e puramente estética, sem a presença de obesidade ou sobrepeso com comorbidades, ignora os riscos clínicos graves. Além disso, a interrupção do tratamento sem um plano de manutenção pode levar à recuperação rápida do peso perdido, reforçando que a obesidade é uma doença de caráter crônico que exige cuidado contínuo.

Conclusão: o remédio não substitui o hábito


Os agonistas do GLP-1 são ferramentas revolucionárias e seguras, desde que utilizadas sob supervisão. No entanto, o sucesso a longo prazo depende de uma abordagem multidisciplinar. O medicamento funciona como um aliado, mas não substitui a necessidade de uma alimentação equilibrada e da prática regular de exercícios físicos.Para entender melhor, imagine que tratar a obesidade é como tentar apagar um incêndio em um prédio. Os agonistas de GLP-1 agem como um sistema de sprinklers (chuveiros automáticos) potente: eles controlam as chamas rapidamente e impedem que o fogo se espalhe. No entanto, se você não consertar a fiação elétrica defeituosa (seus hábitos de vida) e não contar com a inspeção de um bombeiro (o médico), o risco de um novo incêndio começar assim que os chuveiros forem desligados permanece altíssimo…

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