Ozempic e Emagrecimento: o que a ciência diz?

O que é o Ozempic e para que ele serve originalmente
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Caio Vega

Última atualização

23 de fevereiro de 2026

Nos últimos anos, um nome dominou as conversas sobre saúde, as redes sociais e as farmácias: Ozempic. Mas o que existe de verdade por trás desse medicamento que se tornou o “queridinho” de celebridades e influenciadores? Um estudo recente realizado na Universidade de São Paulo (USP) mergulhou profundamente nesse tema para entender o uso da semaglutida no tratamento da obesidade e os riscos do seu uso sem orientação médica.

Neste post, vamos desvendar os principais pontos dessa pesquisa, explicando desde como o remédio funciona no seu corpo até o que acontece quando você decide parar de usá-lo.

O que é o Ozempic e para que ele serve originalmente?


O Ozempic é o nome comercial da semaglutida, um medicamento desenvolvido inicialmente para tratar adultos com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) que não conseguem controlar o açúcar no sangue apenas com dieta e exercícios.

A semaglutida é o que os cientistas chamam de “análogo de GLP-1”. Para entender melhor, o GLP-1 é um hormônio que nosso próprio corpo produz no intestino quando comemos. Ele tem funções vitais: avisa o pâncreas para produzir insulina, reduz o açúcar produzido pelo fígado e, o mais importante para quem quer emagrecer, avisa o cérebro que estamos satisfeitos e retarda o esvaziamento do estômago.

O problema é que o nosso GLP-1 natural dura pouquíssimo tempo no sangue. A semaglutida foi modificada em laboratório para ter uma “vida longa”, durando cerca de uma semana no organismo, o que permite que ela seja aplicada apenas uma vez por sete dias.

A obesidade vai muito além da “falta de força de vontade”


O estudo da USP reforça que a obesidade é uma doença crônica e complexa, resultado de uma mistura de fatores genéticos, ambientais e metabólicos. No Brasil, cerca de 60% dos adultos estão acima do peso, e um em cada quatro é considerado obeso.

Cientificamente, a obesidade gera um estado de inflamação constante no corpo. O excesso de gordura atrai células de defesa que liberam substâncias inflamatórias, dificultando o trabalho da insulina e aumentando o risco de doenças no coração e diabetes. É por isso que perder peso não é apenas uma questão de estética, mas de “desinflamar” o organismo e recuperar a saúde.

O que os estudos clínicos revelam sobre o emagrecimento?

A grande fama do Ozempic para emagrecer não veio do nada. A pesquisa analisou diversos testes clínicos (conhecidos como a série SUSTAIN e outros estudos de fase 3) que mostraram resultados impressionantes:

  1. Perda de peso real: Em pacientes com diabetes, o uso da semaglutida levou a reduções de peso de 3,7 kg a mais de 6 kg em poucos meses, dependendo da dose.
  2. Eficácia superior: Quando comparado a outros tratamentos antigos para diabetes, a semaglutida se mostrou muito mais potente tanto para controlar o açúcar quanto para reduzir o peso.
  3. Resultados em não diabéticos: Em estudos com pessoas obesas que não tinham diabetes, a perda de peso foi ainda maior, chegando a uma média de 14,9% a 17,4% do peso corporal total após um ano de tratamento com doses mais altas (2,4 mg).
  4. Proteção ao coração: O medicamento também demonstrou reduzir o risco de eventos graves, como infartos e derrames, em pacientes com alto risco cardiovascular.

O uso “Off-Label” e o perigo das redes sociais

Aqui entra um ponto crucial: o uso off-label. Isso significa usar um remédio para algo que ainda não consta oficialmente na bula aprovada pela ANVISA no Brasil. Embora o princípio ativo (semaglutida) seja o mesmo, o Ozempic foi registrado para diabetes, enquanto outra versão (Wegovy) é a indicada para obesidade.

O estudo alerta que a “romantização” do Ozempic no TikTok e Instagram, onde celebridades exibem perdas de peso rápidas, ignora os riscos. Muitas pessoas compram o remédio sem receita e sem acompanhamento médico, o que pode ser uma armadilha.

Efeitos colaterais: o lado que ninguém posta no Instagram


Nenhum medicamento é isento de riscos. Os efeitos colaterais mais comuns da semaglutida são de natureza gastrointestinal:

  • Náuseas intensas e vômitos;
  • Diarreia;
  • Diminuição da motilidade intestinal;
  • Sensação de cansaço extremo (muitas vezes ligada à baixa de açúcar ou hipoglicemia).

Além disso, o uso indiscriminado pode esconder doenças mais graves ou causar problemas raros, mas sérios, como inflamação no pâncreas (pancreatite).

O efeito rebote: o que acontece quando o remédio acaba?


Um dos achados mais importantes mencionados no estudo da USP é sobre a manutenção do peso. A ciência mostra que o controle do apetite promovido pela semaglutida é temporário e depende da presença do fármaco no corpo.

Em um estudo específico, pacientes que pararam de usar a medicação após um ano recuperaram cerca de dois terços do peso perdido em pouco tempo. Isso prova que o Ozempic não é uma “cura mágica”, mas uma ferramenta que precisa estar unida a uma mudança real no estilo de vida.

Conclusão


A semaglutida é, sem dúvida, uma opção promissora e eficaz no combate à obesidade e no controle do diabetes. Ela ajuda o paciente a sentir menos fome e a ter menos desejo por alimentos gordurosos, facilitando o processo de emagrecimento.

No entanto, a conclusão do artigo científico é clara: o tratamento deve ser feito com acompanhamento multidisciplinar (médico, nutricionista e, às vezes, psicólogo) e sempre associado a uma dieta saudável e exercícios físicos. O uso por conta própria, apenas por estética ou por influência de redes sociais, pode trazer danos maiores do que o benefício da perda de peso passageira.

Se você está pensando em utilizar essa medicação, o primeiro passo não deve ser a farmácia, mas sim uma consulta com um profissional de saúde qualificado. Afinal, sua saúde vale muito mais do que um número na balança alcançado de forma arriscada.

Para entender melhor como o medicamento funciona, imagine que seu cérebro tem um interruptor de fome que fica ligado o tempo todo. A semaglutida age como uma mão invisível que desliga esse interruptor, permitindo que você tenha calma para escolher o que comer, mas se você não aprender o caminho até o interruptor (mudando seus hábitos), a luz da fome voltará a acender assim que a medicação for retirada.

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