A análise do médico urologista Doutor João Brunhara

João Brunhara

A pandemia exerceu alguma influência na saúde sexual e hábitos sexuais da população brasileira?

João Brunhara: Para nossa surpresa, descobrimos que 57% dos homens disseram que a satisfação sexual deles aumentou durante a pandemia! Essa melhora foi mais expressiva entre os casados e menor entre os solteiros, sendo que 30% dos solteiros tiveram uma piora na vida sexual. Esses dados são interessantes porque em outros países como Reino Unido e Itália, foram feitas pesquisas que mostraram uma piora da vida sexual das pessoas durante a pandemia.

Nesses países o lockdown foi mais severo, existia uma proibição formal de circular na rua e não apenas um fechamento do comércio. Entra também a forma do brasileiro de lidar com as coisas, e na pandemia não foi diferente: predomina o humor, uma abordagem com mais leveza e também uma flexibilização das regras.

O homem brasileiro é bastante ativo sexualmente? Qual a frequência média de relações sexuais da população?

JB: No geral, 64% da população da pesquisa tem relações pelo menos 1 vez por semana. Esse número é alto, se formos comparar com um estudo americano recente em que mais ou menos 40% dos homens tinham essa frequência sexual. Curiosamente essa proporção continua alta na faixa acima de 50 anos, mas entre os mais jovens ficou ao redor de 50%.

Por outro lado, 14% dos entrevistados não tiveram nenhuma relação sexual nos últimos 2 anos, e curiosamente esse número sobe para 24% nos mais jovens, de 18 a 24 anos.

E o número de parceiras/os por ano?

JB: A grande maioria, por volta de 80% em todas as faixas etárias ficaram entre 1 e 3 parceiros nos últimos 2 anos somados.

Os mais jovens tendem a ter mais parceiros, mas mesmo nesse grupo, menos de 10% das pessoas tiveram mais do que 10 parceiros em 2 anos.

O consumo de pornografia interfere nos hábitos sexuais masculinos?

JB: Cada vez mais os estudos mostram que sim. Quem consome pornografia em excesso corre o risco de se desinteressar por parceiras do mundo real e gastar sua libido sozinho. No nosso estudo, vimos uma relação clara: quanto maior o consumo semanal de pornografia, menor a frequência de relações sexuais e menor é a percepção do indivíduo de satisfação com a própria vida sexual.

Claro que cabe o questionamento de o que é causa e o que é efeito, se quem consome mais pornografia não seria justamente quem está solteiro ou não consegue ter relações sexuais no momento. Com certeza existe esse componente, porém a pornografia chega a interferir nos circuitos de prazer e recompensa do cerebro e interfere na vida dos casados também, parasitando a libido e o interesse sexual

Aproximadamente 24% dos jovens de 18 a 24 anos nao tiveram relações sexuais nos últimos 2 anos. Esse número surpreende? Quais são as causas para esse fenômeno?

JB: Primeiro temos que ressaltar que esse é um fenômeno global e progressivo. Naquele estudo americano que eu citei, 30% dos jovens não tinham tido relações sexuais em 1 ano. Os autores mostraram que 20 anos atrás esse número era menos de 20%. Alguma coisa está fazendo com que as novas gerações tenham cada vez menos relações sexuais em todas partes do mundo, e nosso estudo confirmou essa tendência na população brasileira.

Existem várias hipóteses, e o mais provável é que vários fatores aconteçam ao mesmo tempo: aumento de consumo de pornografia, stress da vida contemporânea, horas de trabalho longas, aumento das taxas de ansiedade e depressão. Mas além disso tem a influência do mundo digital. Existe toda uma geração que aprendeu a entender suas interações com o mundo a partir da conectividade, e o online pode assumir uma predominância sobre o contato pessoal direto. Isso pode contribuir para um desinteresse ou uma dificuldade em se relacionar no mundo real.

Ainda sobre os jovens, a presença de disfunção erétil entre pessoas com menos de 35 anos foi de 38%. Parece um número alto para pessoas jovens. Qual é a explicação?

JB: De novo, é uma coisa que tem sido demonstrada recentemente: cada vez mais estudos em outros países mostram aumento de disfunção erétil entre os jovens, que era um problema muito mais raro antes.

Naturalmente, se os jovens têm menos relações (e muitos nem têm tido), a facilidade em conhecer o próprio corpo e ter uma ereção satisfatória é menor. As causas aqui são principalmente psicológicas, relacionadas a auto-estima e insegurança.

Vocês relataram uma ocorrência maior de disfunção erétil entre as classes D e E em relação às demais. Existe alguma explicação para isso?

JB: A explicação mais plausível é que existe uma influência de aspectos gerais da saúde na função erétil: alimentação de qualidade, stress, horas de sono, evitar a ocorrência de doenças crônicas e fazer um bom controle se elas aparecerem. Pessoas com renda maior tem mais chances de cuidarem desses aspectos da vida, têm maior acesso a alimentos de qualidade, atendimento médico e medicações, e isso se reflete também na saúde sexual.

Houve diferenças significativas de hábitos sexuais e saúde sexual entre homossexuais e heterossexuais? E de saúde em geral?

JB: Na nossa amostra, o número de parceiros por ano entre homossexuais foi um pouco maior (por exemplo 13% tiveram mais de 10 parceiros em 2 anos, contra 5% entre heteros). Mas a frequência de relações semanais foi um pouco menor para os homossexuais. Também observamos uma ocorrência maior de ansiedade, de uso de antidepressivos, e uma taxa ligeiramente maior de disfunção erétil do que na amostra geral.

E por que acontecem essas diferenças?

JB: A taxa maior de ansiedade e depressão entre os gays já foi relatada em diversos estudos internacionais. É legal termos demonstrado isso na população brasileira. As causas normalmente atribuídas para isso são o preconceito a que essa população é submetida, medo de não ser aceito, de ser rejeitado ou excluído, e a própria dificuldade em se aceitar, além de diversas outras formas de violência física e verbal, que inclusive têm chamado muita atenção pública recentemente no nosso país.

A disfunção erétil mais presente no público homossexual também já foi mostrada antes em outros países. Aí entram diversos fatores, e cada caso pode ter explicações diferentes. Mas a própria existência maior de ansiedade e depressão acaba afetando a função sexual por mecanismos psicológicos. Além disso, em alguns círculos o culto ao corpo e a auto-cobrança para satisfazer padrões estéticos é maior do que na população em geral, e quando o indivíduo não consegue atingir esses padrões, sua autoestima fica afetada e também pode surgir uma disfunção erétil com origem psicológica.

O brasileiro ainda tem vergonha ou evita procurar ajuda quando tem problemas sexuais?

JB: Apesar de ser um problema que afeta a auto-estima e os relacionamentos interpessoais, 64% dos homens com disfunção erétil nunca procuraram ajuda. 60% sequer conversaram com alguém sobre o tema. Definitivamente é uma situação que envolve vergonha, frustração e insegurança. Não é à toa que os homens guardam isso para eles, é como se a sua masculinidade estivesse em jogo.

Por isso é importante desmistificar o tema, romper essa barreira, informar objetivamente e se colocar à disposição para um atendimento que preserve a intimidade do paciente. A parceira ou parceiro tem um papel muito importante, acolhendo e incentivando o homem a procurar ajuda. Também acontece de os homens não saberem que esses problemas têm solução, e muitas vezes são mais simples do que eles imaginam. Hoje sabemos que associando diferentes estratégias, podemos chegar ao sucesso na maior parte dos casos com atendimento virtual. Nesse sentido, as novas plataformas de telemedicina oferecem um novo horizonte de comunicação confidencial, eficaz e segura desde que realizadas por profissionais qualificados.

Entrevista realizada sobre os dados da pesquisa Omens - Datafolha: “O grande tabu da disfunção erétil”, 2020.

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