Pesquisa Datafolha | O câncer da próstata e o exame de toque retal no Brasil

Brasileiros entendem a importância do exame do toque retal. Mas a desinformação sobre alguns cânceres ainda existe.

O Novembro Azul é uma campanha internacional de conscientização direcionada principalmente aos homens, a fim de conscientizar quanto às doenças masculinas, em especial voltada ao diagnóstico e a prevenção do câncer de próstata.

Foi pensando nisso que a Omens, junto ao Instituto Lado a Lado pela Vida, encomendou uma pesquisa para descobrir os entendimentos dos brasileiros em torno das questões que envolvem a campanha, como o câncer de próstata e o toque retal. Para esta pesquisa, foram entrevistados homens e mulheres de todas as regiões do Brasil com 18 anos ou mais.

O toque retal afeta a masculinidade dos brasileiros?

O toque retal é um exame carregado de tabus. Por muitos anos, tem sido difícil convencer os homens de que não há problema, nem físico, como caso de dores, nem psicológico, como uma possível “perda da masculinidade”. Por isso, na pesquisa, abordamos qual a visão dos brasileiros sobre esse tema.

E de início, podemos observar um dado de certa forma surpreendente e positivo. A maioria esmagadora dos brasileiros (95%) reconhece a importância do toque retal para o diagnóstico precoce do câncer de próstata. E entre aqueles com 50 anos ou mais, este dado é ainda maior, atingindo a casa dos 99%.

Além disso, ao que parece, a ideia de que fazer este exame possa interferir na masculinidade do homem tem ficado para trás. Apenas 9% dos respondentes disseram acreditar que um homem possa ficar “menos másculo” ao realizar o exame, enquanto outros 88% não acreditam nisso. Mais uma vez, aqueles com cinquenta anos ou mais - que são também o principal público-alvo deste exame - surpreendem e aparecem com uma porcentagem maior (95%) entre aqueles que não acham que este exame possa interferir na masculinidade, se comparados aos mais jovens (86%).

Apesar de também não apresentar um índice muito alto, o maior problema identificado neste primeiro momento foi com um entendimento de que quem faz este exame pode ficar impotente. Neste caso, 11% dos entrevistados disseram acreditar nesta teoria. O número não é alto, mas se somado àqueles que não sabem (8%) já chegamos a quase 20%, ou seja, um a cada cinco respondentes que não têm certeza que esta correlação não exista. Mais uma vez, a conscientização sobre o tema se mostra mais presente entre os mais velhos: 89% em comparação aos 82% da média.

De modo geral, nestes três aspectos, as taxas são semelhantes entre homens e mulheres. A principal diferença se deu na pergunta sobre o exame causar ou não impotência: enquanto 86% das mulheres acreditam que não, este índice foi de 77% entre os homens, ao passo que 12% deles disseram não saber. O Dr. João Brunhara, urologista, comenta que muitos homens contam com a ajuda de seus companheiros para cuidar de sua saúde, por isso, a participação das mulheres, para os casos de homens heterossexuais, é fundamental.

Aqui, pode-se identificar que, de modo geral, quase todos os brasileiros já se conscientizaram sobre importância do toque retal e de que não afeta a masculinidade, ainda que existam em alguns cenários, cerca de 10% de pessoas a dar mais foco.

Entretanto, apesar disso, apenas 19% dos homens adultos já fizeram o exame de toque retal. É comum que este índice esteja mais baixo entre aqueles de 18 a 50 anos (atingiu, nesta pesquisa, 12%), visto que o público-alvo é, em geral, de homens mais velhos. Dentre os homens com 50 anos ou mais, 56% disseram já ter realizado este exame, e outros 40% não fizeram, mas fariam se necessário. Se boa parte dos homens acima de 50 anos que não fizeram os exames estão dispostos, percebe-se que eles não têm frequentado um médico como o urologista, ou não estão recebendo a recomendação com a devida ênfase.

Encontra-se também um ponto muito positivo e importante: apenas 6% dos homens disseram que nunca fariam este exame. Apesar de o número ideal ser ainda mais próximo de zero, é importante notar o quão bem as campanhas de conscientização têm funcionado, e tornado possível que cada vez menos pessoas tenham resistência e ideias negativas deste exame, como por exemplo a de que ele “torna menos homem”.

Mas há relação entre os cânceres e a impotência?

Além das perguntas relacionadas ao exame do toque retal, quisemos também entender as impressões dos brasileiros no que diz respeito às doenças trabalhadas na campanha do Novembro Azul: o câncer de próstata, de pênis e de testículos.

De modo geral, a maioria dos brasileiros (78%) concorda que o câncer de próstata pode ser curado, e este índice é majoritário em todos os recortes.

Há uma grande importância neste dado, principalmente se relacionarmos ao fato de que uma grande maioria reconhece a importância do exame, principalmente levando em conta que seu objetivo é o diagnóstico precoce. Quanto mais precoce o diagnóstico, maior as chances de cura.

Além disso, existem diversos boatos que rondam o imaginário dos brasileiros, relacionando estes tipos de câncer a problemas de disfunção erétil e incontinência urinária.

Para 39% dos brasileiros, todo paciente com diagnóstico de câncer de próstata apresenta problemas de disfunção erétil ou incontinência urinária. Este índice é muito semelhante para os casos de câncer de testículo e levemente maior no caso de câncer de pênis (43%). Os índices também permanecem semelhantes entre aqueles que dizem não saber. Esse ponto de esclarecimento e quebrar essas faltas ideias é a próxima fronteira em educação da população para desmistificar a doença ainda mais e aproximar mais homens do tratamento. Existe a possibilidade, sim, de alguns pacientes terem problemas de potência e continência, mas com as técnicas mais modernas, essas chances são cada vez menores, e com maiores possibilidades de tratar esses efeitos colaterais de forma mais eficaz.

O mais curioso é que, em todos estes casos, a maior incidência ocorre entre aqueles que acreditam que o exame do toque retal interfere na masculinidade ou pode deixar o homem impotente: 77% e 66% respectivamente para o caso de câncer de pênis, 73% e 69% para o caso de câncer de próstata, e 70% e 73% para câncer de testículo. Além disso, dentre os que dizem não saber, sempre há uma incidência relevante entre aqueles que disseram que nunca fariam o exame de toque retal.

Outra curiosidade fica pelo fato de que, em todos estes casos, a maior incidência de discordância se dá entre as mulheres: 24, 22 e 17% respectivamente, contra 20, 18 e 15% nos casos dos homens.

Por fim, também foi perguntado se acreditavam haver uma correlação entre cirurgias da próstata e problemas de disfunção erétil ou incontinência urinária. Desta vez, 30% dos brasileiros discordaram.

Entretanto, mais uma vez, algumas estatísticas se repetem: dentre os 24% que concordaram, 64% acreditam que o exame do toque retal interfere na masculinidade, e 71% que este mesmo exame poderia deixar o homem impotente. E também, entre os 27% que disseram não saber, 36% disseram que não fizeram nem fariam o exame do toque.

De modo geral, as respostas com relação a crença de que fica-se impotente ou incontinente após um caso de alguns destes cânceres, foram as que mais envolveram desinformação e, dessa forma, um foco na elucidação e educação em torno destas questões poderiam ser de bom proveito.

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